A luta das mulheres brasileiras pelo sonho olímpico
- De Frágil a Atleta

- 17 de out. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024
Com o desempenho positivo das mulheres brasileiras na Olimpíada 2024, surge o questionamento sobre como elas chegaram lá, mesmo com tantos obstáculos

Quantas vezes você já presenciou mulheres sendo incentivadas nos campos, quadras e tatames?
Se hoje elas são celebradas e bem-vindas nas arenas esportivas, vale lembrar que nem sempre foi assim. Mulheres tiveram que batalhar muito para conquistar um lugar no mundo das competições.
Uma história marcada por muita luta e perseverança em prol do reconhecimento dentro de uma das áreas mais associadas e dominadas pelo sexo masculino. O esporte é reconhecido pela atividade física desenvolvida com fins recreativos ou competitivos para homens e mulheres de todas as idades. E é durante passeios pela praia, visitas a clubes ou estádios e conversas entre amigos que ele se demonstra uma pauta extremamente importante na vida das pessoas.
Porém, mesmo com essa aparência tão inclusiva, é majoritariamente praticado pelo sexo masculino e apresenta muitos obstáculos para as mulheres. Apesar das recentes políticas públicas criadas para atrair o público feminino, ainda existe preconceito criado nos primórdios da sociedade em relação à mulher e o esporte.
Para a professora de sociologia na Universidade Santa Cecília (Unisanta) e socióloga Denise Alcântara, esse comportamento faz parte do conceito conhecido como o patriarcado.
“Esse é um sistema que oprime as mulheres e as coloca em segundo plano, ou seja, elas são tratadas como dependentes dos homens, que são os únicos capazes de decidirem o que é melhor para todos. Daí a origem do conceito do termo sexo frágil”, explicou.
Atualmente, é comum que haja um grande encorajamento para atletas femininas, com a criação de equipes de base para meninas iniciarem sua trajetória no esporte. Mas em sua maioria, o público ainda assim dá valor aos esportes onde os uniformes são justos ou que elas precisem expor seu corpo. Tudo para olhos do público masculino
“É importante refletir que as mulheres recebem mais apoio em esportes tidos como ‘femininos’ ou que valorizam a objetificação feminina, ou seja, expõe seus corpos”, completa a socióloga.
Seja com a falta de incentivo, estrutura ou sexualização de seus corpos, a mulher é colocada pela sociedade como o “sexo frágil”. Elas sofrem a alcunha de algo que é inferior ao homem, incapaz de reproduzir as mesmas atividades nas mesmas qualidades, que sempre vão precisar de suporte ou não são autossuficientes.
Porém, com o passar do tempo, é nítido que essa estigma não colou. Pois bem, é hora de contar a história delas.
As pioneiras
As primeiras mulheres iniciaram as práticas esportivas ao final do Século XIX em modalidades que demonstrassem sua essência feminina, associada à delicadeza e beleza física, como o golfe e o tênis. Devido à falta de estrutura profissional e a postura extremamente conservadora da época, não seria possível chamá-las de atletas.
De acordo com a professora de história na Escola Municipal Albert Einstein e historiadora Nadya Araújo, a aceitação das mulheres no esporte viria com a passagem do tempo, ausência dos homens em ambientes esportivos e momentos de destaque feminino.
“A aceitação acontece no século XX, mas a valorização acredito que ainda é uma construção social. Por exemplo, durante as guerras mundiais, uma vez que os homens estavam indisponíveis para participarem de competições. E este ano, com o regramento equalizando a participação de ambos os sexos nas Olimpíadas de Paris e com os resultados olímpicos, há uma imposição para esta valorização”, comentou.
Foi justamente a partir do começo do Século XX, mais precisamente com a realização dos Jogos Olímpicos da era moderna, que as mulheres começaram a ganhar notoriedade no esporte. Porém, mesmo que a maior competição esportiva do mundo tenha seu valor no auxílio para o desenvolvimento de atletas femininas.
O idealizador da competição, Pierre de Fredy, o Barão de Coubertin, era contra mulheres nesse ambiente.

Para o francês, seguindo o exemplo dos Jogos Olímpicos da Grécia Antiga, a competição deveria exaltar a força, o poder e a masculinidade, e não teria espaço para as mulheres, que seriam “imitações imperfeitas” do homem. Portanto, na primeira Olímpiada de era moderna, realizada em 1896, as mulheres não estiveram participaram. Isso mudou em 1900, nos Jogos Olímpicos de Paris, quando 22 atletas do sexo feminino foram inscritas em cinco modalidades, disputando o tênis, vela, croquet, hipismo e golfe.
Entre as primeiras mulheres a participarem da maior competição esportiva do mundo, não existia sequer uma brasileira. Mas tudo bem, até porque o Brasil também não participou dessa edição dos Jogos Olímpicos, pois só viria a estrear na competição em 1920, na Antuérpia, com 29 atletas e nenhuma mulher.

Foi apenas em 1932 – mais de três décadas após o início dos Jogos Olímpicos da era moderna e 12 anos desde a primeira participação do Brasil no torneio – que um fato inédito marcou a passagem da delegação brasileira na Olimpíada de Los Angeles: a nadadora e filha de imigrantes europeus, Maria Lenk, a primeira mulher brasileira na história a participar da maior competição esportiva do mundo.
Nas edições seguintes, outras mulheres fariam parte da delegação brasileira, mas sempre como a minoria.
O Brasil estreou na Olímpiada de 1920 com 29 atletas, todos homens.
Desde a primeira mulher em 1932 até 1988, com 35 atletas femininas – é necessário frisar que as mulheres demoraram mais de 60 anos para ultrapassarem o número de homens brasileiros da primeira edição dos Jogos Olímpicos –, o sexo feminino corresponde a apenas 8,7% do Time Brasil em 56 anos.

Em 1992 na Olímpiada de Barcelona, a delegação brasileira deu um salto no número de atletas mulheres, com 55 representantes. Daquele ano em diante, a contagem de mulheres no time brasileiro só cresceu e, nos jogos do Rio, em 2016, a quantidade de participantes femininas se tornou a maior da história, com 209 atletas.
Os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, realizados durante a pandemia, marcaram a delegação brasileira pela menor diferença de participantes entre homens e mulheres desde 1932, sendo 141 atletas femininas contra 161 masculinos.

O grande feito das mulheres brasileiras nos tempos atuais aconteceu em Paris-2024. Com 153 atletas do sexo feminino convocadas para a Seleção Brasileira deste ano, elas representaram 55% da delegação e se tornaram maioria pela primeira vez na história. Além disso, de 20 medalhas conquistadas durante o torneio, 12 foram delas.
Entre proibições e atrasos
Por mais que as mulheres brasileiras tenham conquistado seu espaço ao longo dos anos nos Jogos Olímpicos e alcançado o feito inédito da maioria de participantes na delegação brasileira deste ano, é necessário lembrar que grande parte das modalidades disputadas por elas sofreu um atraso de 40 anos em seu desenvolvimento.
No Brasil, as primeiras mulheres passaram a integrar atividades esportivas ao final do Século XIX e começo do Século XX em modalidades nas quais não houvesse contato físico, ou nas de natureza elitista, como o tênis, com suas praticantes sendo filhas de imigrantes europeus ou de pessoas ligadas ao comércio e à produção de café.
Mesmo com a participação de brasileiras nos Jogos Olímpicos a partir de 1932, as modalidades femininas sofreram um duro preconceito pela sociedade da época. Em 14 de abril de 1941, o Decreto-Lei Nº 3.199 foi assinado, impossibilitando o avanço em termos de estrutura e performance do esporte feminino.
Sancionada por Getúlio Vargas, a lei dificultava a prática de esportes pelas mulheres. No capítulo IX, intitulado “Disposições Gerais e Transitórias”, o artigo 54 dizia:
“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.
E mesmo com o decreto, ainda existiu muita resistência feminina ao longo dos anos, com a realização de eventos esportivos para mulheres de forma clandestina. A situação veio a piorar de vez em 2 de agosto de 1965, quando o General Eloy Massey Oliveira de Menezes, então presidente do Conselho Nacional de Desportos, assinou a “deliberação número 7”.

Segundo a norma, esportes como lutas de qualquer natureza e também futebol, futsal, futebol de praia, polo-aquático, polo, rugby, halterofilismo e baseball estavam proibidos para as mulheres. A partir disso, inúmeras declarações de “especialistas” no assunto tomavam conta das manchetes dos jornais, inclusive usando de supostas opiniões médicas para justificar a ausência de mulheres nos esportes. Mas existe mesmo uma diferença tão exótica a ponto de excluir as atletas?
A médica Taline Costa, da equipe de Natação Unisanta, concorda que existem diferenças fisiológicas entre os corpos de masculinos e femininos, mas nada que impeça o desenvolvimento da mulher na prática esportiva.
“Meninas e meninos não diferem muito na maioria das mensurações relativas ao porte e à composição corporal. Na puberdade, por causa da influência do estrogênio e da testosterona, a composição corporal começa a mudar de maneira bastante significativa. Porém, embora tenham características diferentes, ao treinar eles apresentam alguns comportamentos semelhantes”, explicou.
E além das diferenças físicas serem usadas por alguns como justificativa para a exclusão das mulheres, também existem as teorias relacionadas ao período menstrual e uma possível queda de rendimento esportivo da mulher durante competições. Porém, segundo a médica da Unisanta não passam de especulações.
“Recordes mundiais foram estabelecidos por atletas de elite em absolutamente todas as fases do ciclo menstrual. A gente tem que entender de forma individualizada como a mulher se sente diante o ciclo. Pode ter queda de desempenho na fase de TPM, outras mulheres têm queda de desempenho durante a menstruação e não durante a TPM. Então, não existem dados confiáveis que demonstram qualquer mudança significativa no desempenho atlético em nenhum momento do ciclo menstrual”, completou.
As coisas vieram a melhorar em 1979, com a abertura política nos últimos anos de ditadura militar e a revogação do Decreto-Lei Nº 3.999. Tanto que nos anos seguintes, o cenário esportivo feminino brasileiro ganhou certo destaque, como a já citada participação em massa de mulheres na Olímpiada, campanhas de destaque das Seleções Brasileiras de futebol, vôlei, basquete, entre muitos outros esportes em seus devidos campeonatos mundiais e a afirmação que a mulher e o esporte são do mesmo universo.

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