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Além do tatame, a luta no judô feminino é pelo reconhecimento

  • Foto do escritor: De Frágil a Atleta
    De Frágil a Atleta
  • 2 de nov. de 2024
  • 7 min de leitura

Atualizado: 19 de nov. de 2024

Apesar dos 40 anos de proibições e olhares desconfiados, elas alcançaram seu espaço nas artes marciais, principalmente nos Jogos Olímpicos


Aos 18 anos, Luana Bigolado luta pelo respeito como mulher e reconhecimento como judoca (Créditos: Arquivo pessoal)

Grandes nomes como Soraia André, Danielle Zangrando, Ketleyn Quadros, Mayra Aguiar, Rafaela Silva, e mais recentemente, as atletas da Baixada Santista, Beatriz Souza e Larissa Pimenta fizeram ou fazem parte da história do judô feminino no Brasil.

 

Essa arte marcial já rendeu 28 medalhas olímpicas para o Brasil, oito delas conquistadas por mulheres. E isso não é pouco, afinal, diante do Decreto-Lei Nº 3.199 de 1941 e da “deliberação número 7” de 1965, que proibiram a prática de algumas modalidades, incluindo os esportes de luta, as judocas entraram com atraso no tatame, mas deram a volta por cima.

 

Mestre japonês Jigoro Kano, o criador do judô (Créditos : Getty Images)

Criado em 1882 no Japão pelo mestre Jigoro Kano, o judô utiliza o corpo do atleta para atacar seu oponente e se defender. Esposas, irmãs e parentes dos primeiros praticantes se interessaram pelo esporte, mas devido à rígida sociedade oriental, os treinos eram realizados somente entre elas, de forma simples, com foco apenas nos fundamentos da modalidade, ao invés da prática em luta.  


Porém, esse primeiro passo foi importante para popularizar o esporte entre as mulheres e, no ano de 1923, o Instituto Kodokan – criado pelo mestre Jigoro Kano em 1882 – fundou um departamento exclusivamente para o judô feminino.

 

A luta das brasileiras


No Brasil, o judô teve início na década de 1920, logo após a chegada de imigrantes japoneses. Porém, como dito anteriormente, as mulheres foram impedidas de praticar esportes de combate nos anos 40 com a criação do Decreto Lei 3.199 e a “deliberação número 7” de 1965.


A imposição dessas leis para as mulheres consistia no pensamento que a prática de artes marciais entre o público feminino poderia causar danos à integridade física da mulher, uma “masculinização” das atletas e, principalmente, colocar em risco a possibilidade de ser mãe ou as condições físicas necessárias para criar seus filhos.


No final da década de 1970 e início dos anos 1980, as transformações sociais, culturais e políticas eram evidentes e fizeram com que o esporte ganhasse força e espaço entre as mulheres brasileiras.

 

O ano de 1979, inclusive, foi um marco para as judocas. Isso porque quatro atletas foram ao Sul-Americano de judô, no Uruguai, com nomes de homens para obter passagens aéreas. O feito delas resultou, em 1980, na legalização do judô feminino junto ao Conselho Nacional de Desporto, com órgãos responsáveis pela modalidade auxiliando as atletas em campeonatos nacionais e internacionais.

 

No cenário olímpico, o judô se torna destaque a cada edição do torneio e, mais recentemente, as judocas tem conquistado espaço no histórico de medalhas do país na categoria.

 

Luana Bigolado

 

Com o esporte em alta, principalmente em época de Jogos Olímpicos, a reportagem do De Frágil a Atleta entrevistou a judoca Luana Bigolado, de 18 anos, atleta da Associação de Judô Ivo Nascimento e que já representa a cidade de Santos em campeonatos da modalidade.

 

A atleta está no mundo esportivo desde pequena, mais precisamente desde os cinco anos de idade, quando praticava natação e se aventurava no escotismo. Natural de Santos, Luana sempre foi muito focada no esporte, então nunca parou para pensar o que faria caso não tivesse se tornado atleta.

 

“Minha trajetória começou quando aos oitos anos. Minha mãe sempre quis me colocar em muitos esportes, então acabei fazendo natação, corrida e um deles acabou sendo o judô. Foi um esporte que me apaixonei logo de primeira porque desde pequena sou um pouco mais bruta”, contou.

 

Brincadeiras à parte, a “brutalidade” de Luana se limita apenas a luta. Afinal, o sorriso de orelha a orelha e voz suave da atleta fazem parte da conversa, que tem um tom parecido como um desabafo para amigos próximos.

 

O judô, que vem se destacando Olímpiada após Olímpiada, é uma modalidade que, teoricamente, por sua disciplina e respeito aos praticantes, não deveria manter a estigma preconceituosa da sociedade em relação à mulher, mas Luana conta que já deixou de treinar com meninos, por se achar insuficiente para eles.

 

“A gente acaba precisando treinar bastante com os meninos, por questão técnica e de força. Quando era mais jovem, deixei de treinar com eles, por achar que poderia prejudicar o treino deles. Acho que uma das maiores dificuldades é que eles tenham medo de treinar com a gente, por achar que vão machucar, ou que nós não temos força. Isso acaba prejudicando não só nosso treino, mas o psicológico. A gente pode começar a se questionar”, relatou.

 

A reclamação não se limita ao tratamento de possíveis colegas de treino. Usando apenas a memória, é possível lembrar que o judô é um esporte de uniforme padronizado, o judogui, uma vestimenta tradicionalmente usada por judocas, projetado com tecidos resistentes e trançados, especificamente para suportar as rigorosas demandas do esporte. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, foi muito comum assistir aos atletas do sexo masculino usando apenas seu uniforme, enquanto as mulheres vestiam o judogui e uma camisa por baixo.


O judogui para atletas femininas costuma ser acompanhado com camisas por baixo (Créditos: Arquivo pessoal)

Luana conta que nunca passou por situações de assédio, até por ser do meio desde pequena, mas já ouviu que a vestimenta não era para mulheres. Além do uniforme, a atleta já ouviu que o judô não deveria ser praticado pelo público feminino.

 

“É normal pessoas que não são do mundo do esporte quererem opinar ‘nossa, por que sua mãe não colocou a filha num balé, ao invés do judô?’ Já aconteceu isso comigo. Me perguntaram o porque estava fazendo um esporte tão bruto, se não tinha medo de me machucar. E medo a gente tem, de se machucar, de sangrar, de ter alguém mais forte, mas é o que a gente gosta. Se não arriscarmos, vamos acabar numa cápsula presa”.

 

Olímpicas como inspiração

 

Por mais que a arte marcial ganhe mais destaque para o público geral em períodos dos Jogos Olímpicos, os judocas se conhecem e admiram os seus. Não é diferente com Luana.

 

A santista conta que apesar de entrar no meio sem muito conhecimento sobre as principais atletas, com o tempo, ela descobriu suas referências enquanto viajava para campeonatos e, inclusive, já chegou a treinar com duas medalhistas da Baixada Santista.

 

“Eu comecei muito nova, então nem entendia muito disso. Mas logo quando eu comecei a viajar, fui pegando referências como Rafaela Silva e Mayra Guiar. Quando fui ficando mais velha, fui realmente entendendo sobre o mundo do esporte. Acabei pegando referências de meninas que são daqui da região, como as medalhistas olímpicas Bia Souza e Larissa Pimenta, que já tive a oportunidade de treinar. Então, acho que não tem ninguém melhor do que se inspirar de quem veio de onde a gente vem e conseguiu chegar lá no alto”, comentou.

 

Apesar de ter referências no esporte e valorizar o desempenho olímpicos das judocas, a atleta ressalta que também é preciso que a mídia auxilie no desenvolvimento do judô no Brasil. Afinal de contas, quantas vezes você já assistiu alguma luta sem ser durante o período olímpico? Segundo Luana, a arte marcial, que já é escondida o suficiente do público geral, acaba sofrendo com a falta de visibilidade e, posteriormente, atrapalhando o alcance entre as mulheres.

 

“Às vezes pode parecer que o judô é um esporte bastante escondido, mas, por exemplo, nessa Olimpíada o sentimento é que o judô se destacou. Mas os atletas de alto rendimento ficam um pouco preocupados com o que será desse esporte no futuro, se as pessoas vão valorizar. Já foi uma preocupação que eu tive também. Se eu continuar no mundo competitivo, quando eu tiver adulta, vão me valorizar? O judô já é um esporte que não é tão conhecido. E a parte que é conhecida, é por ser um esporte masculino. Então, acaba prejudicando, principalmente o lado feminino”, externou.           

Lutas do presente e futuro 


Mas mesmo com as dificuldades e muito esforço para o reconhecimento das mulheres no esporte e principalmente no judô, Luana vê o futuro com bons olhos. Afinal, ela é muito engajada no desempenho feminino, que teve seu grande destaque mais uma vez nos Jogos Olímpicos.

 

Para ela, a conquista das atletas em diversos esportes na Olímpiada de Paris ajuda não só outras do meio, mas as mulheres como um todo. É a partir desses resultados – aliados ao incentivo geral para o público feminino no esporte – que será possível produzir mais atletas.    

 

“Essa conquista é maravilhosa. Porque as mulheres, não só as que são atletas, mas em geral, sentem que estão ganhando lugar. Isso encoraja mais e mais mulheres a entrar nesse mundo esportivo. De uns anos para cá, o resultado que a gente teve, pelo menos nas Olimpíadas, e que a gente vai ter futuramente, vai ajudar muito as mulheres a terem confiança, a não terem medo de entrar nos esportes. Elas vão ver, se inspirar, e quanto mais mulheres, melhor”, comentou.

 

Quantos mais mulheres, melhor. Essa é a frase de uma mulher com pouca idade, mas muita sabedoria. Mas sua vida não é dedicada apenas para o esporte, mesmo que ela afirme que os colegas do judô são considerados sua família.

 

Luana concilia os treinos do judô com a faculdade de biomedicina, que iniciou nesse ano. E quando não está no dojo praticando sua paixão, ela provavelmente está na praia com os amigos, se distraindo das obrigações ou treinos.

 

Luana, com o judogui azul, aplica golpe na adversária (Créditos: Arquivo pessoal)

Sobre o futuro, a judoca define que irá ser uma atleta profissional. Não apenas para poder disputar campeonatos, conquistar medalhas ou aprender mais sobre a arte marcial. Mas também, para inspirar as mulheres.

 

“Quero crescer. O ano está virando e eu tenho muitas expectativas para o próximo que está vindo. Quero focar muito mais. Espero conseguir um lugarzinho na seleção de base ano que vem. Se tudo der certo, vou estar lá. Ficar cada vez mais forte e poder encorajar cada vez mais mulheres a entrarem nesse mundo. E provar que não é só sair na porrada”, concluiu.

 

 

 

 

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