Brasileiras nadam pela valorização no esporte
- De Frágil a Atleta

- 11 de nov. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024
Desde Maria Lenk, a pioneira das atletas femininas nos Jogos Olímpicos, elas deixam seu máximo nas águas

Quantas vezes você já viu pais e mães inscrevendo seus filhos na natação? Esse esporte parece ser o grande triunfo para as crianças que iniciam sua trajetória como atletas e para quem deseja manter o corpo ativo.
As primeiras mulheres a nadarem em nosso país eram filhas de imigrantes europeus – que eram a favor da pratica esportiva independente do sexo – ou descendentes de pessoas da elite brasileira. A pioneira do nado feminino competitivo é Maria Lenk, que em 1932, se tornou a primeira mulher brasileira e sul-americana a disputar os Jogos Olímpicos, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Desde então, a natação feminina tem seu destaque em campeonatos Mundiais, Sul-Americano, Pan-Americanos, com grandes nomes como Etienne Medeiros, Fabíola Molina, Joanna Maranhão, entre tantas outras, e na Olimpíada, com resultados históricos, como as medalhas de ouro de Ana Marcela Cunha (Tóquio-2020) e o bronze de Poliana Okimoto (Rio-2016) na maratona aquática.
Daynara de Paula
Falando em Jogos Olímpicos e mulheres que se destacam nesse esporte, nada melhor para o De Frágil a Atleta do que contar a história da nadadora olímpica Daynara de Paula, de 35 anos, que já participou de três edições do torneio, em Pequim-2008, Londres-2012 e Rio-2016.
Atualmente, nadando pela Universidade Santa Cecília, a mais de três mil quilômetros de sua casa, a nadadora amazonense iniciou sua trajetória em uma “aventura” em sua cidade natal, Manaus. Aos seis anos de idade, ela foi desafiada pelos filhos de uma amiga da mãe a entrar na piscina de dois metros de profundidade.
“Quando minha mãe me viu dentro da piscina, quase teve um ataque, porque eu nunca tinha nadado ou feito aula. Então, no dia seguinte, estava matriculada na natação. A partir de lá aprendi que amava nadar”, contou.
Inclusive, a realização de que ela se tornaria uma atleta profissional vem desde cedo. Quando era adolescente, a atleta participou de um torneio chamado “Peixinhos e Golfinhos” que presenteava os três primeiros colocados com um certificado de “pré-convocação para a Olímpiada de Pequim”.
De família humilde, sua mãe vendia bolos para comprar seus equipamentos, como o maiô, toca e óculos, peças importantes para uma nadadora. Além disso, a atleta não tinha tanto conhecimento sobre o esporte como um todo. Por conta disso, suas inspirações vieram com o tempo de competição.

“Quando fui para os Jogos Olímpicos em Pequim, o pessoal falava do Michael Phelps, e eu perguntava ‘quem é?’. Aí fui ver que o cara era um fenômeno. Depois que comecei a nadar que conheci os grandes nomes da natação e de outros esportes. Sei o tanto que é difícil para um brasileiro chegar onde chegou. Então, hoje em dia, tenho muita admiração por todo atleta brasileiro”, comenta.
Olímpica, mas mulher
Não vá pensando que por ser três vezes uma atleta olímpica, a nadadora é isenta da desvalorização esportiva tão recorrente no nosso país. Daynara conta que no passado, alguns clubes já pagaram mais para atletas masculinos com menos currículo que ela, apenas pelo fato de serem homens. Sem citar nome dos envolvidos, a atleta cobrava uma maior valorização pelo seu desempenho.
“Eu falava ‘Olha, eu ganho isso e pontuo isso para o time. Estou entre os tops do Brasil há mais de sete anos. Como uma pessoa com essa pontuação ganha isso e eu não?’. Fui muito mulher, vamos dizer assim, para não comprar brigas na qual eu não poderia. Porque é uma coisa enraizada no mundo. Então, a gente tem que chegar e argumentar. Que é o que a gente faz de melhor, se posicionar”, analisou.

A diferença no tratamento entre homens e mulheres não é só na questão salarial. Atualmente nas redes sociais, as publis — posts para a divulgação de algum produto ou marca — estão em alta para atletas.
Porém, se prestarmos atenção, é muito comum ver mulheres do meio esportivo sendo convidadas para publicidades que mostrem o corpo delas de maneira um tanto quanto sensual ou até mesmo para conteúdos que têm esse foco.
Por ser uma atleta e influenciadora ao mesmo tempo, a nadadora considera que alguns convites devem ser negados. Afinal, a viralização da foto de um atleta masculino sem camisa tem comentários com um teor muito mais positivo do que uma foto de lingerie de alguma atleta do sexo feminino.
“Já perdi vários patrocínios por causa disso. Acho que não seria viável para o que eu procuro. Por exemplo, faço foto de biquíni e ainda tenho que ver o ângulo para não colocar uma foto só da minha bunda ou de peito. Sou atleta e influencio a nova geração. Então, realmente presto muita atenção no que vou postar para influenciar as pessoas para o lado positivo. E se você fizer uma propaganda, eles vão querer mostrar o que uma mulher tem de melhor. Seria, teoricamente, o meu corpo. E assim, não pode postar a minha inteligência? O meu nado? Não, eles focam mais no corpo. Então, eu meio que perco trabalhos”, lamentou.

Além da publicidade desfavorável, o espaço na mídia não é o mesmo para todos. De forma cômica, ela cita os programas “A Fazenda” e “Big Brother Brasil” e diz que, no Brasil, qualquer ex-participante desses reality shows que tenham feito algum barraco seriam mais valorizados do que ela.
A concorrência na relevância para o povo brasileiro fica ainda maior se lembrarmos que a maioria dos grandes nomes da natação citado em transmissões e programas de TV, são de homens. Você com certeza já ouviu falar de César Cielo, Bruno Fratus ou Felipe França, mas e de Daynara?
“Por exemplo, temos homens campeões mundiais e a Etienne Medeiros, que já foi recordista e campeã mundial várias vezes. Quem você conhece? As pessoas nem sabem quem é a Etienne, e ela é uma grande mulher. A Fabiola Molina ficou mais de cinco anos ganhando a prova do 100m costas. Como ninguém nunca valorizou isso? É difícil, mas a gente tem que jogar com as moedas que tem”, relatou.
Orgulho, influência e nado
O último ano de Jogos Olímpicos dá inúmeros motivos para valorizar as nadadoras e a mulher no esporte como um todo. Diversos resultados históricos, como as 12 medalhas conquistadas por atletas femininas na edição do torneio esse ano e o desempenho memorável das nadadoras – muitas delas da Unisanta – faz com que o público tenha um maior apreço por elas.
Esses são alguns dos passos necessários para que a mulher no esporte tenha o reconhecimento que tanto merece. É claro, devemos adicionar também, a vontade de novas atletas em integrar o ambiente.
“Mostra que a mulher consegue ser atleta também. Ela só tem que querer. Quando eu falo de igualdade, é isso. É não limitar as gerações. Por exemplo, na minha época tinha limitações que eu, de família humilde, nunca pensei que conseguiria três Olimpíadas na minha carreira. Mas a minha mãe nunca me limitou. Acho que o diferencial de hoje em dia é isso, as pessoas recebem um limite muito cedo”.
Aos 35 anos, a nadadora faz questão de lembrar que ainda tem lenha para queimar nas piscinas. Mas mais do que isso, o desejo de Daynara também é auxiliar as novas gerações de nadadoras na trajetória esportiva.
“Costumo falar que amo nadar. Gosto mais de treinar do que competir, e acho que tenho um propósito na vida, porque a minha carreira é muito boa. Ainda consigo ganhar das novinhas, costumo até zoar. Então, quero continuar nadando e quero ajudar a Unisanta a desbloquear e a dominar a performance dos atletas e da nova geração. O meu futuro é praticamente isso, ajudar a nova geração”, concluiu.
Primeiros nadadores
Da existência milenar – com referências à modalidade em pinturas rupestres de 2000 a.C. – ela se tornou competitiva no início do Século XIX, em território britânico. No Brasil, o nado possui origem entre os povos indígenas, que utilizavam da atividade como forma de sobrevivência, uma vez que eles se deslocavam na água para fugir de ataques de animais.
Como esporte, a primeira competição brasileira de natação aconteceu no ano de 1898, chamada de “concurso aquático” e disputado entre a fortaleza de Villegaignon até a praia de Santa Luzia, na cidade do Rio de Janeiro.




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