Da navegação indígena até esporte olímpico, a canoagem conquista as brasileiras
- De Frágil a Atleta

- 11 de nov. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024
O esporte ainda é visto como uma atividade recreativa, mas cresce em número de participantes e nos eventos competitivos, atraindo cada vez mais mulheres

A canoagem no Brasil é mais lembrada pelo seu caráter recreativo e menos pela sua relevância como esporte competitivo. Quem vive em cidades litorâneas já se acostumou a ver grupos embarcados em uma canoa alongada, chamada também de va’a ou a bordo de caiaques, em passeios descontraídos.
Porém, esse também é um esporte olímpico, que na maior competição esportiva do mundo, é dividido em duas categorias: canoagem de velocidade e slalom. Recentemente, o Brasil tem se destacado na primeira modalidade, principalmente pelo desempenho de Isaquias Queiroz com sua embarcação do tipo C1.
E não podemos esquecer de grandes atletas, como Ana Paula Vergutz, da canoagem de velocidade K1, ou Ana Sátila, da canoagem slalom, que chegaram esse ano à segunda e quarta participação em Jogos Olímpicos, respectivamente.
Bruna Libório
Mas por favor, não vá confundir os tipos de canoagem. A reportagem do De Frágil a Atleta entrevistou Bruna Libório, de 19 anos, canoísta destaque na Baixada Santista e atleta do Clube de Regatas Vasco da Gama, em parceria com a Fundação Pró-Esporte de Santos (Fupes). No seu dia a dia, ela utiliza três tipos de embarcações diferentes: C1 (canoa), K1 (caiaque) e surfski.
Porém, Bruna é especialista e compete mesmo pela modalidade de canoagem de velocidade K1 – que faz parte da programação dos Jogos Olímpicos – e canoagem oceânica (surfski). Natural de Santos, sua trajetória no esporte se iniciou aos 10 anos com a natação, mas graças a um timing perfeito da reativação da ONG de seu pai – que dá aula de canoagem para crianças no bairro Santa Cruz, em Guarujá – ela despertou o interesse pelas embarcações.
“Realmente comecei no esporte com a natação pela Unisanta, competi por lá, e teve uma época que parei. Mas eu sempre gostei muito de esporte, e meu pai tinha uma ONG, só que como era um projeto social, acabou fechando por conta de custo. Só que na época que parei de nadar, ele abriu a ONG de novo e dei uma chance”, contou.
A atleta tem como suas inspirações as canoístas Ana Paula Vergutz, a qual Bruna conheceu no período em que fazia parte da Seleção Brasileira de K1, e Carmen Lúcia, da canoagem oceânica, que inspira a jovem pela sua longevidade no esporte.
Remando contra maré
A canoagem é um esporte que quando analisado, não há aquele velho preconceito que o desempenho de homens e mulheres vão apresentar uma diferença. Afinal, é a técnica, treinamento e habilidade do atleta que o permite estar no pelotão da frente no mar ou rio.
Bruna percebe uma diferença gritante no tratamento entre participantes masculinos e femininos, seja com a qualidade de equipamentos, locais de treino ou até mesmo com relação à abordagem de treinadores.
“Eu senti essa diferença. Muitas vezes parecia ser sutil, mas tinha um pouco de ênfase mais…sabe? Às vezes pode ser uma coisa pequena, ou a gente finge que não é nada. Sempre tem, né?”, concluiu.
Ela se queixa, inclusive, de críticas ao seu corpo de atleta. Isso porque, a canoagem é um esporte que demanda muito da força dos membros superiores, ou seja, os treinos têm foco nos braços e ombros.
A canoísta conta que costuma ouvir comentários do tipo: “Nossa, você vai ficar muito masculinizada” desde os 13 anos de idade. Observação que, inclusive, fez com que ela questionasse seu corpo e treinasse menos, prejudicando seu desempenho.
“A gente fica sem chão, porque eles falam de um jeito ruim, como ‘ninguém vai te querer’, porque você vai parecer um homem. Isso é triste, porque a gente está ali se dedicando. Fiquei um tempo tentando segurar o treino em relação à academia, porque achava que ia ficar mesmo parecendo um homem. Acabei me autossabotando por conta de uma pessoa que nem fazia parte da minha vida de alguma forma e fez um comentário maldoso”, relata atleta.
Ela alega inclusive, que em Santos, é a única canoísta do K1. Para ela, os pré-julgamentos que fazem parte da trajetória das meninas desde cedo na canoagem atrapalham o desenvolvimento de mais atletas na modalidade.
“Muitas meninas começam e chegam numa fase desses pré-julgamentos. É aí que começa o problema. Saindo um pouco disso, tem que ter mais estrutura de base, tanto feminina quanto masculina. Em Santos, no feminino, só tem eu de K1. Lembro que na ONG do meu pai entrava muita menina, mas não dava aquela continuidade. Às vezes, é ouvir uma coisa que não deveria. Acho que é essa parte do incentivo”, explicou.

A falta de visibilidade da mídia também é algo que afeta esse meio. Afinal, grande queridinho da imprensa é a canoagem em velocidade C1. Segundo a canoísta, o esporte deveria receber sua devida atenção em todas as modalidades, para que assim, as mulheres pudessem se interessar pela canoagem.
“Seria o ideal, porque é um esporte muito completo. Infelizmente, ele é de alto custo e acho que isso também acaba atrapalhando. Mas, quanto mais você dar visibilidade, mais elas vão ter esse conhecimento sobre”, comentou.
A canoísta conta que acompanhou os Jogos Olímpicos desse ano com atenção e, a cada medalha, é mais um incentivo para que as mulheres se aprofundem no mundo esportivo.
“Adoro a Olimpíada e estava acompanhando. A cada medalha eu falava ‘Está crescendo o número de mulheres’. Acho isso muito bom, porque às vezes aquela menina que está olhando, vai se inspirar. São referências. Igual falei, na base chegam meninas e tem que ter esse incentivo. Tipo, ela conseguiu, você consegue. Vai dar um aumento, se Deus quiser, em todos os tipos de esporte”, concluiu.
A velocidade e o oceano

A carreira da jovem é dividida. Além das competições, ela também volta suas forças aos estudos da fisioterapia, curso que está apaixonada e se dedica no segundo ano na Universidade Santa Cecília (Unisanta). Já no esporte, ela está entre a canoagem de velocidade K1 e a canoagem oceânica.
Essa divisão acontece por um simples motivo: Bruna é uma grande fã das duas modalidades, mas apenas uma delas é considera olímpica – no caso a canoagem de velocidade. Mas enquanto ela se divide entre o sonho olímpico, a busca pelo Mundial ou competições como o Pan-americano, ela sabe que no futuro algo é certo: que irá ser uma atleta profissional.
“Acho que é um sonho olímpico de toda atleta. É uma coisa que tem dentro do meu coração. Mas eu também gosto muito da (canoagem) oceânica, só que ela não é olímpica. Então, acho que essas são as minhas duas metas. Chegar em uma Olimpíada e ganhar um Mundial também”, desejou.
Primeiras remadas
A canoagem é originária dos povos indígenas da América do Norte e dos esquimós, que usavam das canoas ou caiaques para atividades, como pesca, transporte ou até para fins bélicos.
No século XIX, na Europa, seu uso se tornou esportivo. O escocês John McGregor construiu uma canoa inovadora, batizada de Rob Roy e que é considerada a precursora do caiaque atual. Com sua criação, McGregor navegou por vários países da Europa e do Oriente Médio e, aos poucos, popularizou a novidade.
No Brasil, a canoagem começa muito antes da influência europeia. Isso porque os indígenas sempre utilizaram canoas como transporte meio de transporte, muitos povos mantêm a tradição até hoje.
Como esporte, a canoagem chegou ao país 10 anos depois da sua inserção nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O alemão José Wingen, que morava no município de Estrela no Rio Grande do Sul, inspirou-se no caiaque que utilizava na Alemanha quando criança e decidiu criar a sua própria embarcação, projetando e trabalhando na sua construção.
Aproximadamente 30 anos depois, o brasileiro Leopoldo Ávila deu prosseguimento à história da canoagem no país. Retornando de uma viagem da Europa, ele trouxe um caiaque de fibra de vidro, aprimorando as formas e os acabamentos das embarcações. O esporte foi, então, instituído no Brasil. Anos depois, outros tipos de modalidades da canoagem chegaram ao país.




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