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Vôlei é destaque entre os esportes femininos

  • Foto do escritor: De Frágil a Atleta
    De Frágil a Atleta
  • 17 de nov. de 2024
  • 7 min de leitura

Atualizado: 21 de nov. de 2024

Corriqueiramente associada às mulheres, modalidade coleciona medalhas olímpicas


Luiza (à esquerda) e Ludmila (à direita) são jogadoras de vôlei que sonham em se tornar profissionais (Créditos: Arquivo pessoal)

Praticado no Brasil desde 1927, o vôlei feminino é um dos poucos esportes em que elas realmente são incentivadas. A história vitoriosa na modalidade começa em 1951, com a disputa do primeiro Campeonato Sul-Americano - patrocinado pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e apoiado pela Federação Carioca de Volley Ball - disputado no Rio de Janeiro, com a seleção brasileira feminina se sagrando campeã. 

 

Ao longo dos anos, outros títulos foram se acumulando e lançando luz sobre mulheres que fizeram história nas quadras, como Isabel Salgado, Ana Moser, Fabi Alvim, Fernanda Garay, Macris ou Sheilla, representando o Brasil campeonatos mundiais, sul-americanos e nos Jogos Olímpicos.

 

Além disso, falando em Olímpiada, não podemos deixar de mencionar as atuais medalhistas de bronze, como Gabi Guimarães, Rosamaria ou Thaisa, e é necessário frisar que o terceiro lugar em 2024 - a sexta conquista olímpica desde 1996 - abriu mais uma vez os olhos da nação para esse esporte tão ligado ao público feminino.

 

Luiza Garcia e Ludmila Guimarães


Sempre em evidência nos últimos anos, o vôlei é conhecido pela sua recorrência na revelação de novos talentos para o esporte a todo momento. Dessa forma, o De Frágil a Atleta conversou com as jogadoras Luiza Garcia e Ludmila Guimarães, de 19 e 18 anos, respectivamente, são jogadoras de vôlei na Baixada Santista, pelo projeto Associação Realizar, em parceria com a Fundação Pró-Esporte de Santos (Fupes).

 

A dupla faz parte da equipe sub-21 e jogam em posições complementares, a levantadora e a oposta. Apesar das jogadoras acrescentarem a posição da outra, elas se encontraram apenas em Santos, já que seus locais de origem têm mais de mil quilômetros de distância. Natural do Rio de Janeiro, a levantadora Luiza começou no esporte aos setes anos de idade na cidade maravilhosa, quando ainda jogava futebol e conheceu o vôlei de praia graças a sua irmã.


“Minha irmã jogava vôlei de praia e eu jogava na escolinha de futebol do lado. E aí eu comecei a gostar mais do vôlei do que do futebol e ela me colocou na escolinha de vôlei de praia”, explicou.

 

Já a oposta Ludmila é de Arapongas, no interior do Paraná, e não tinha muito conhecimento sobre o esporte, até que foi convidada pela sua amiga a conhecer o projeto de vôlei de sua cidade.

 

“Eu não tinha noção que a minha cidade tinha um time, nem era muito fã de vôlei. A minha amiga falou ‘tô fazendo vôlei, o que você acha de ir lá conhecer o projeto e ver se gosta?’. Fui, conheci, gostei do esporte e acabei entrando na escolinha”, comentou.

 

Coincidentemente, as duas jogadoras têm referências justamente nas posições em que jogam. A carioca se espelha na também levantadora Macris, vice-campeã olímpica em 2020, enquanto a bi-campeã dos Jogos Olímpicos Sheilla é a grande influência da oposta araponguense.

 

Evitando o bloqueio

 

Mesmo que o vôlei seja um esporte de certa maneira acolhedor para suas praticantes – por conta da imensa relação que o público faz da modalidade com o sexo feminino – ainda assim, as duas comentam que passaram por muitas dificuldades em sua curta carreira.

 

Já na primeira viagem para competir fora do Brasil, Luiza notou o tratamento negativo vindo de seu técnico da época no vôlei de praia.

 

“Ele tratava a gente como se nós fossemos do time masculino. Sempre usava palavras grosseiras, e tínhamos que saber lidar com isso e jogar bem ao mesmo tempo. Os técnicos de quadra são mais amigáveis, em comparação à praia. Mas nessa época, eu pensava ‘Será que posso falar? Será que posso fazer isso? Posso fazer aquilo?’ Eles eram muito rígidos com as palavras”, relatou.

 

Já Ludmila conta que sua primeira experiência negativa veio ao sair de casa no interior do Paraná para a grande São Paulo. Sem conhecer a cidade, a oposta conta que se apavorava com desconhecidos e a possibilidade de algo ruim acontecer.

 

Além disso, ela também relata que a relação com técnicos não era das melhoras. Com medo de alguma represália, a atleta preferia não se expressar em relação à dúvidas ou questões do jogo com seu comandante.

 

“Às vezes tinha medo de expressar a minha opinião. Acontecia uma determinada situação, tanto em jogo ou treino, e ficava um pouco com medo de falar o que eu tô pensando, por causa da reação dele. Tinha muito medo de falar qualquer coisa e ser julgada”, externou.

 

Mas o problema vai além da abordagem de certos comandantes com as atletas. Talvez, entre os esportes mais conhecidos pelo público brasileiro, o vôlei feminino seja um dos mais sexualizados.


Enquanto os homens do vôlei utilizam camisas de manga curta e shorts na altura do joelho, as mulheres entram em quadra uniformizadas com regatas e shorts minúsculos ou peças que parecem uma minissaia.

 

E se compararmos aos uniformes do passado, os atuais são discretos. Ao longo dos anos, elas já utilizaram diversos tipos de maiôs em Jogos Olímpicos e, se não fosse o protesto das atletas, teriam utilizado uma espécie de “macaquinho” no Grand Prix de 1995. A dupla comenta que os olhares e comentários sobre os uniformes são recorrentes, e que as opiniões desnecessárias do público não afetam seu rendimento, mas são presença constante na cabeça das atletas durante jogos ou treinos.


“Principalmente fora das quadras. Quando a gente sai do treino, às vezes temos que ir a pé pra casa e parece que o nosso físico atrai mil vezes os olhares do que qualquer outra pessoa.  Em alguns momentos que acontecia, e aí você fica ‘Nossa peraí, tão olhando pra mim. Ajeita, próxima, dane-se’. É meio que assim”, contou a levantadora.

 

“Olham e falam do tamanho dos shorts ou alguma coisa relacionada a isso. Às vezes me sinto até um pouco incomodada com o shorts. Fico abaixando ou pego uma camisa mais larga pra tampar. É um incomodo muito grande. Às vezes perco um pouco o foco em jogo”, relata a oposta.


Um problema que parece ter um caminho para resolução é falta de visibilidade da mídia. Nos últimos anos, as partidas do principal campeonato nacional feminino brasileiro, a Superliga, têm ganhado cada vez mais destaque, com transmissões do SporTV e do Canal Vôlei Brasil, o canal oficial do Youtube da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV).

 

Porém, seguindo os moldes de outros esportes femininos no Brasil, essa valorização se mantém apenas para os jogos entre profissionais. Para a carioca, essa questão é um motivo para desencorajar as aspirantes do vôlei.

 

“Isso desanima bastante. Essa falta de credibilidade em todo o projeto que é feito por nossa parte, principalmente, nós meninas da base. Vejo que tem muito pouco investimento. Então, isso deixa você bem desanimado. Tipo, tô jogando aqui e no final não vai adiantar de nada todo o meu sacrifício, todo o esforço que eu fiz”, expressou Luiza.

 

Já Ludmila concorda que esse é um motivo de desânimo entre as atletas, mas vê com esperança o crescimento do esporte na mídia, mesmo que “lute” com o grande queridinho da TV, o futebol.

 

“Nosso esporte vem crescendo, não tanto quanto o futebol, mas se a gente tivesse a visibilidade, o investimento e tudo que o eles têm, seria uma história totalmente diferente. Porque qualquer lugar que você vai, por exemplo, para uma quadrinha, tem alguém dando um toque, uma manchete, mesmo que não tenha base. A pessoa vê ali e fala ‘Eu vou tentar’. Acredito que se tivesse investimento, esse esporte ia crescer muito rápido no Brasil”, externou.

 

Saque do futuro


Pelo que contam, Luiza e Ludmila se esforçam para atrair mais meninas ao esporte. Isso porque, quando não estão ocupadas com a intensa rotina, elas aproveitam seu tempo para incentivarem atletas de categorias inferiores na continuidade do vôlei e tentam despertar a vontade na modalidade em não-praticantes.

 

E devido ao desempenho olímpico das mulhes nesse ano, e o histórico vitorioso da Seleção Brasileira na maior competição esportiva do mundo, há incentivo de sobra para novas atletas no esporte. Para a dupla, a conquista do bronze no vôlei e outras medalhas olímpicas femininas é um recado para todos que duvidaram.

 

“Fiquei bem feliz. Na verdade, foi um tapa na cara de muita gente que esperava que os homens iam chegar lá em cima, e no final, não ganharam nada. Até mesmo o futebol, que todo mundo coloca muita expectativa, nem foi. Então, fico muito feliz por isso”, comemorou Luiza.

 

“É uma grande representatividade, né? Acho que ninguém esperava isso, e quando as notícias repercutiram, todo mundo achou legal. Me senti representada por isso”, externou a araponguense.

 

Sobre o futuro, a levantadora carioca quer seguir o sonho de criança. Se no Brasil há uma certa dificuldade para a formação de novas atletas, o exterior parece mais amistoso e, por isso, ela deseja uma carreira internacional. 

 

Luiza, com a camisa 2, exercendo a função de levantadora pela Associação Realizar (Créditos: Arquivo pessoal)

“Acho que desde pequena, a gente sempre traça um futuro na nossa cabeça. Pretendo sair do Brasil. Nada contra, mas aqui não temos tanto valor. Acho que lá fora, a gente tem muito mais oportunidades, e é meio que esse o caminho que eu estou tentando seguir”, contou.


Enquanto isso, a oposta também deseja se aventurar Brasil afora, mas com uma atenção especial para oportunidades na Superliga, a principal competição de vôlei feminino no país.

 

Ludmila sacando uma bola durante jogo pela Associação Realizar (Créditos: Arquivo pessoal)

“Espero e quero muito chegar no profissional, na Superliga. Talvez jogar fora do Brasil. Uma coisa que eu amo realmente é jogar vôlei e é o que quero para a minha vida. Então, espero muito que, em uns cinco anos, esteja jogando na Superliga em algum time, onde possa estar me divertindo, e fazendo a minha vida através do vôlei”, concluiu Ludmila.

 

Primeiro voleio


Criado em 1985 pelo professor e diretor de educação física na Associação Cristã de Moços (ACM) de Springfield, nos Estados Unidos, o voleibol ou "mintonette" - como era conhecido na época - foi concebido com uma série de fatores: ser um jogo com menos risco de lesões e poder ser jogado em quadra fechada, como alternativa para o inverno.

 

No ano seguinte da sua criação, o professor foi convidado a fazer uma demonstração do esporte em um encontro promovido pela ACM. Nessa ocasião, a alteração do nome “mintonette” para “volley ball” foi sugerida pelo professor Alfred T. Halstead, porque os movimentos do novo jogo sugeriam isso, um voleio, ou seja, uma jogada feita no ar.

 

 

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