O basquete aguarda sua popularização no Brasil, enquanto as atletas tentam a sorte lá fora
- De Frágil a Atleta

- 3 de nov. de 2024
- 8 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024
Sem reconhecimento até para os homens brasileiros, as basqueteiras esperam por dias melhores

Responda rápido: diga o nome de uma jogadora de basquete, pode ser brasileira ou de qualquer time, de qualquer país. Se em 30 segundos nenhum nome veio à sua mente, tão povoada de referências como Lebron James, Stephen Curry ou Kevin Durant, talvez seja por causa da pouca visibilidade do basquete feminino.
Como é possível não conhecer jogadoras históricas da WNBA, como Sue Bird, Candace Parker ou Brittney Griner? Ou até mesmo Hortência, Magic Paula ou Janeth, que conquistaram o Mundial de basquete feminino em 1994 pelo Brasil?
Também não podemos esquecer da pivô Kamilla Cardoso, que vem fazendo sucesso na maior liga de basquete feminino recentemente, da ala-pivô Stephanie Soares e da ala Damiris Dantas, que por seis anos foi a única brasileira na WNBA.
Como produto de mídia, o basquete vem crescendo cada vez mais no Brasil. Principalmente com a criação de ídolos e o alcance de seus astros na televisão e redes sociais, entre eles, alguns brasileiros e brasileiras da NBA e WNBA.
A modalidade chegou pelas mãos do professor norte-americano Augusto Shaw, em 1896. Nas suas aulas na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, o professor apresentou o basquete aos brasileiros. Inclusive, apesar do esporte ter se desenvolvido mais rapidamente na categoria masculina, ele fez sucesso primeiro entre as mulheres brasileiras, pois os homens tinham maior apreço pelo futebol.
Com o tempo, o basquete feminino se desenvolveu e, em 1946, a primeira Seleção Brasileira da categoria foi criada. Ao longo dos anos, as equipes femininas conquistaram destaque, com medalhas nos Jogos Olímpicos, como a prata em Atlanta-1996 e o bronze em Sydney-2000, e títulos em Campeonatos Mundiais, Jogos Pan-Americanos, Copa América e Campeonato Sul-Americano.
Atualmente, a Seleção Brasileira de basquete está há duas edições sem disputar uma Olimpíada.
Débora Saran e Ingrid dos Santos
A reportagem do De Frágil a Atleta conversou com Débora Saran e Ingrid dos Santos, de 18 e 19 anos, respectivamente, da equipe sub-20 de Basquete Santos F.C., em parceria com a Fundação Pró-Esporte de Santos (Fupes) e o Instituto Base.
As meninas saíram da confortável rodinha entre companheiras de equipe pós treino para conversar sobre os assuntos que cercam o universo feminino-esportivo. Em uma mistura de certeza nas falas e um sorriso tímido, elas falaram sobre a relação com o esporte que um dia foi chamado de “bola ao cesto”.
Natural de São Paulo, a ala-pivô Ingrid, passava seu tempo quando criança em casa, brincando com suas famosas bonecas da Barbie e sonhando que no futuro seria bombeira. Porém, aos sete anos de idade, a paulistana conheceu o esporte na cidade de Osasco e, apesar de fazer outras modalidades ao mesmo tempo, preferiu o basquete.
“Comecei num projeto no parque perto de casa. Meus pais sempre me incentivaram a fazer esporte, mas nunca gostei. Comecei com o vôlei, mas também tinha o basquete e até mesmo atletismo. Fui vendo que o basquete era bem diferente do vôlei, por ter mais jogos, mais campeonatos e dava medalha. Me interessei bastante por causa disso.”, contou.
Já a pivô Débora aproveitou sua origem na cidade de Santos para brincar na rua, pintar alguns quadros e surfar. Segundo ela, sua altura já chamava atenção na época da escola e aos 14 anos, sua vida finalmente teve a adição do esporte que ela pratica até hoje, graças a uma companheira de equipe do próprio Santos.
“Uma das meninas que treina aqui estudava comigo, e através de um professor me encaminhou tanto pro atletismo quanto pro basquete. As pessoas me consideravam bem alta”, explicou.
Mesmo que as meninas tenham origens um pouco diferentes no basquete, sendo a idade em que começaram a maior delas, ambas se assemelham com a falta de modelos famosos a serem seguidos. Por exemplo, as inspirações de Ingrid na quadra eram as meninas que praticavam o esporte junto com ela, enquanto Débora comenta que seu maior incentivo é sua mãe, que quando começa algo, sempre termina.
Dificuldades como mulheres
Não é mistério para ninguém que quando o assunto é esporte, as mulheres não são tão valorizadas quanto os homens. Essa é uma construção social que vem desde os primórdios e gera para elas, o estigma de seres “frágeis”.
No basquete não é diferente. Os modelos mais famosos no cenário atual vêm diretamente da NBA, a liga masculina norte-americana. No Brasil, como o basquete ainda está em desenvolvimento e luta pelo reconhecimento do público, as pessoas não costumam conhecer seus astros, mesmo quando são homens.
O principal campeonato da categoria feminina em nosso país chama-se Liga de Basquete Feminino (LBF), e possui a TV Brasil como emissora oficial e o SporTV como emissora dos playoffs, também conhecidos como mata-mata.
Mas mesmo que haja transmissões disponíveis para o público, quantas vezes você já viu algum jogo do basquete feminino? Ou pior, quantas vezes você já viu alguma transmissão do basquete na base? Para as atletas, esse é um grande motivo para o desânimo.
“Desmotiva, né? Porque você treina a semana inteira e quando chega o jogo, quer alguém lá torcendo por você. Quando a gente joga, vem as meninas das outras modalidades e nossos pais, então não é muita gente. É muito desmotivador ver na TV e nas lives, arenas lotadas no masculino. E nada da gente”, contou Ingrid.
Para Débora, o fato de o esporte ainda ser muito associado aos norte-americanos também ajuda na falta de valorização.
“É bem triste na verdade. Porque a maioria das pessoas nem conhece o basquete, porque é um esporte bem americanizado. E quando conhecem, são somente os times masculinos. Nunca sabem nada sobre o basquete feminino. Até porque não tem muita divulgação. A gente quer ter mais visibilidade, porque é uma coisa que a gente se doa muito pra fazer”, reclamou a pivô.
E as dificuldades vão além da pouca visibilidade. Para quem não acompanha o esporte, o basquete tem uniformes padronizados para homens e mulheres, consiste em uma regata e shorts que termina na altura da coxa. Porém, a vida da mulher no ambiente esportivo é acompanhada pela falta de noção de muitos que decidem assistir partidas femininas, mas fazem comentários desnecessários.

Durante uma parte dos anos 2000, o vestuário do basquete era um “macaquinho”, uma peça inteiriça conjugando blusa e shorts colada ao corpo. A indumentária sofreu alterações na tentativa de se evitar a sexualização do corpo das atletas, mas acabou gerando outro desconforto, na visão da ala-pivô Ingrid. Ela argumenta que na tentativa de adaptar o vestuário masculino aos corpos das mulheres, o design colaborou para um certo desconforto das meninas, principalmente com relação à largura exagerada e ao comprimento das peças.
“Agora é a regata e o shorts, mas muitas vezes escutamos comentários da arquibancada falando que o calção é muito curto. Falta adaptar para o nosso corpo, porque os uniformes de jogo são muito largos e as camisetas grandes demais. Então, faltou adaptar”, critica a atleta.
Já a pivô Débora comenta que no passado ela precisou usar o uniforme do time masculino, pois suas equipes não tinham verba ou simplesmente optaram por não produzir peças para as meninas.
“Embora eu veja muitos uniformes que objetificam a mulher, que são curtos e extremamente ridículos, nunca aconteceu comigo. Mas assim, já aconteceu de a gente ter que jogar com o uniforme masculino, o que sempre foi bem desconfortável”, avalia.
Um arremesso para o futuro
Chega a ser injusto o quanto as jogadoras de basquete, mesmo na base, passam para chegar onde estão. Até porque, segundo elas, a falta de reconhecimento da rotina cansativa e carência de oportunidades no começo da carreira também está muito presente na trajetória esportiva. Por conta disso, ambas quase desistiram de praticar o basquete.
Mas tiveram uma decisão em comum: continuar pelo sonho de se tornarem atletas profissionais. A persistência faz parte da luta da mulher no mundo real e esportivo. Para as meninas, mesmo com a dificuldade que as cerca, existem maneiras de trazer mais mulheres para esse ambiente.
“Gosto bastante de me comunicar com as pessoas, então acho que esse seria um dos meios. E também, projetos, postar em redes sociais, fazer lives para incentivar, ou comentar com alguém. Acho que a partir da comunicação, a gente consegue”, comentou Ingrid.
Além da comunicação entre atletas e o público que sua companheira de equipe citou, Débora ressalta o papel da mídia na valorização da mulher no esporte. “Tem que ter mais reconhecimento e mídia. Mostrar pro mundo que a gente faz e que não é só eles. Muitas pessoas não assistem, né? Porque não é divulgado”, reclama.
Existe maneira de aproximar esses dois universos. Não é à toa que na Olímpiada de Paris 2024, o time brasileiro conquistou 20 medalhas, sendo 12 por mulheres em diversas modalidades. Por mais que o basquete feminino passe por uma fase difícil no aspecto olímpico, Débora e Ingrid sentem um prazer imensurável com o feito das mulheres no torneio.
“A palavra que posso definir é orgulho. Assim, aos poucos, a gente está sendo reconhecida. Eu sei que vai ter os nossos altos e baixos, mas a gente tem que continuar, não parar”, comentou a ala-pivô.
“Acho que é incrível. Querendo ou não, traz muito mais visibilidade do que a gente realmente tem no dia a dia. Não que a gente precisa provar algo, porque não precisamos, mas isso mostra que a gente merece tanto quanto”, completou a pivô.
O feito das mulheres brasileiras na Olimpíada de Paris 2024 abre um leque para grandes voos femininos no futuro. Porém, é necessário lembrar que antes das atletas existem os indivíduos.
Por exemplo, atualmente, Ingrid passa seu tempo livre passeando por lugares novos, ouvindo música e cozinhando, e além de treinar intensamente, aguarda ansiosamente pelo término do ensino médio para poder cursar medicina.
A santista Débora ainda pinta seus quadros, lê e confeita quando pode, além de conciliar o basquete com sua faculdade de direito. Ambas têm o interesse de continuar no esporte, em busca do reconhecimento e realização profissional, mas com algumas diferenças em relação as suas expectativas.

“Quero continuar nessa, digamos, carreira de atleta. Continuar jogando e futuramente ser profissional. Conseguir ir para fora do país de novo, conseguir ter novas experiências e também me formar. Fazer faculdade e continuar porque gosto bastante e não quero parar nunca”, relatou Ingrid.
Comparada a sua companheira de time, Débora tem uma visão mais pé no chão em relação a continuidade no esporte, mas ainda mantém o sonho de se tornar uma profissional junto do seguimento nos estudos.

“Eu pretendo muito ter um futuro. Só que as oportunidades são bem poucas. Então, a gente tem que dar o máximo todo dia, porque é muito difícil ser atleta. Por exemplo, eu tô fazendo faculdade, e querendo ou não, os treinos precisam muito de você e acaba tirando tempo de muita coisa. É meio incerto”, concluiu.
A origem do Basquete
A modalidade foi criada pelo canadense James Naismith, professor de educação física na Associação Cristã de Moços de Springfield, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Em 1891, preocupado com o forte inverno norte-americano, decidiu criar um esporte que não dependeria das condições climáticas e poderia ser praticado tanto em espaços fechados, quanto no calor em áreas abertas.
Outros pré-requisitos do professor faziam parte da modalidade criada por Naismith, como a bola, o fato de os atletas usarem as mãos e menos contato físico que o futebol americano. Daí surgiu o basquete, com regras um pouco diferentes do que conhecemos hoje em dia, mas ainda assim, era o basquete.
Em 1892, uma mulher, também professora em Massachusetts deu as caras. Nascida na Lituânia e residente dos Estados Unidos desde os sete anos, a professora de educação física no Smith College, Senda Berenson, ficou sabendo do esporte criado pelo colega e decidiu entrevistá-lo para saber mais.
Em sequência, ela apresentou a modalidade para o colégio em que lecionava. É claro que, após presenciar suas alunas o praticando, a professora decidiu adaptar algumas regras para um aproveitamento melhor das mulheres nesse esporte.












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